E estou pensando seriamente em publicar um livro pra ver se alguém me ler! Alguém que me estude como um clássico da literatura brasileira. Que vire as páginas com cuidado. Que risque com caneta e régua as partes mais importantes. Que me faça dedicatórias. Que não me esqueça num canto qualquer. Que sinta meu cheiro de livro usado. Que me leve no colo. Que leve pra cama. Que adormeça comigo sob luz do abajú. Que amanheça comigo enrolado no lençol. Que marque minhas páginas para lembrar onde parou a leitura no dia seguinte. Que aprenda a ler comigo. E que depois me ensine.
Pois é, deu meu coração de ficar sonhando acordado.Mazes
Depois de alguns encontros, algumas conversas, alguns gestos, eu descobri uma coisa...
Na verdade não foi lá uma grande descoberta, comparada aos grandes feitos dos grandes cientistas do mundo. E não foi nada digno da atenção mundial, já que eu não descobri o antídoto para sanar a dor de ser Humano e a sonhada descoberta da fonte da juventude. Descobri apenas uma pequena coisa de grande valor: Um dos maiores erros que cometemos diariamente é subestimar o amor que as pessoas sentem por nós.
Nunca faça isso, te peço! Nunca mais faça isso... Acredite, onde eu pensei haver menos amor, foi onde eu mais me surpreendi. E hoje, e todos os dias, eu só queria cantar o maior clichê que existe: A vida é bela. Mesmo que eu não saiba o que acontecerá. Mesmo que os dias se apresentem cinza, como foram alguns dos meus dias recentes e sei que muitos outros virão. Mesmo que pareça que as coisas estão todas soltas e que eu não tenho talento para organizar minha vida. Eu quero realmente acreditar em quem me diz: Vai dar tudo certo, se acalma!
São as pessoas que me mantem forte. Essas mesmo, sem super poderes. Não são as coisas que me equilibram. Diria o Arnaldo Antunes que as coisas não tem paz. Eu desisti das coisas há muito tempo, mas das pessoas eu me recuso a desistir. Quantas palavras de amor eu ouvi esses dias... Quantas certezas eu tive! Como agulhas... É, como agulhas costurando a cru o tecido da ferida recém-aberta.
Por isso espere, porque convenhamos, o bom tempo sempre chega. E demora pouco, fique atento. E nunca, nunca subestime o amor de quem te ama.
Pela primeira vez na vida, que já dura vinte e poucos anos, resolvi tomar uma cerveja sozinho num bar. Lugar escolhido: Bar Margarida. Situado em algum espaço geográfico do grande Recife. O curioso é que o tal bar nem flor tinha, muito menos música ao longe, como é comum aos bares recifences. (Passantes nas ruas, mesas vazias, fotos espalhadas na parede e eu lá).
Pensando que talvez o amor seja colocar a solidão no bolso e desocupar as mãos para melhor abraçar a quem se quer. É espremer o pano molhado e estender no varal para que os raios do sol umedeçam o tecido encharcado. Amar é esconder a sujeira, jogar as impurezas para debaixo do tapete e receber visita. É tomar um copo de cerveja aos poucos para não embebedar-se demasiadamente rápido, típico das paixonites avassaladoras, que terminam quase sempre pela falta de delicadeza.
É talvez ver os carros bonitos passando e não querer ir com eles, porque a todo momento surgem novos carros bonitos e viver de coleção não faz lá muito sentido para um corpo que só precisa de amor. Porque amor, caros desacreditados, é talvez procurar abrigo em dias de chuva e ouvir Miles Davis na vitrola e ter a certeza de que tudo o que você precisa está em casa bem guardado. E toda dor é nada, porque existe a certeza do amor, a certeza de que alguém vai te preparar uma noite de carícias delicadas, sem te cobrar um corpo escultural ou um desempenho acrobático na cama. Porque a solidão em certos momentos pode até ser boa companheira, mas quem realmente deseja levá-la ao altar e casar-se com ela?
Porque amor, amor mesmo, é talvez ir aprendendo juntos como se faz. É semear as alegrias mansas mesmo quando a maior tristeza vem. É não machucar. É ao menos ser leal quando não for possível ser fiel. É entender sem precisar de muitas explicações. É assumir nossa imperfeição e entender que a pessoa por quem se espera uma vida inteira também não pode ser perfeita. Porque amar é colocar mais um prato na mesa. É cobrir de carinho quem te diz que não sabe amar direito. Porque amar direito é na verdade não saber amar.
Porque o amor que eu pouco conheço, é talvez acender um cigarro com fósforo ao invés de um isqueiro, porque amar é correr o risco de ter que tentar várias vezes até finalmente acender um palito que dure e acenda a chama. E que bom seria se manter essa chama acesa dependesse apenas de um dos lados, mas não dá, porque o amor na prática é uma relação bilateral. Duas partes que estão juntas pelo único motivo de querer estar. É o grande laço, um passo pra uma armadilha do Djavam. É o estar-se preso por vontade do Camões. É o mais que isso da Ana Carolina. É o meio ermo do Lourenço Baeta.
Porque o amor é tudo o que negamos e procuramos, tudo ao mesmo tempo e sem tempo exato. É todo nosso clichê brilhando nas noites escuras. É toda nossa solidão se espalhando nas festas da cidade. É toda mossa farsa. Todo nosso discurso moderno. Toda nossa fé reunida numa esperança de poder ser olhado com acuidade por alguém especial. Porque no fundo, bem lá no fundo, quem não já quis ou quer ouvir ou fazer o pedido da foto acima? E quem não aspira por um final feliz com quem se ama?
O amor, meus amigos, é tudo, menos tirar a solidão do bolso e beber sempre sozinho num bar.
A cada passo, a cada choro, a cada silêncio dito. A cada gole me bebo um pouco mais. Na raiva que sinto, no amor que eu não encontro, na vida que tento levar. E minha sede sempiterna é o que me faz movimentar o que me sobra de sonhos. Tá lento? Estou construindo minhas paredes. Edifícios, dirão os mais otimistas. Casa de taipa, dirão meus inimigos. Uma quitinete, diria minha solidão. Um iceberg, diria eu. A cada esquina me vejo mais longe. Tá perto? E mesmo morto continuarei a ser, porque longe de mim tudo ainda sou eu. Doce, amargo, todas as cores. Nos desejos que me fogem o controle, na cama que eu não amanheço, nas teorias que eu não entendo. É o mesmo de mim, mesmo não sabendo. A cada promessa, a cada giro, a cada alegria, eu estou me enfeitando. Tá bonito? Nada é amanhã, tudo se cristaliza hoje e hoje mesmo derrete. Você me chega e descubro que o Sul é longe demais para nos aproximar, eu estou me despedindo. Meus disfarces, meus retratos, meu mundo imaginário. Pura ilusão acreditar que o processo terá fim. Eu estou me construindo...
Você que tem os olhos apertadinhos, que respira sem pressa e que tem o sotaque mais doce de toda aquela faculdade. Você que mora na capital, que frequenta bons restaurantes, que tem bons contatos, que gosta de cinema, música clássica e rock ‘n’ roll. E eu que fico do lado de cá, enquanto você passa com seu ar de autoridade, deixando no ar a dúvida se está fitando a mim. Eu que fico só te olhando de longe - de boca aberta - enquanto você caminha flutuando com um charme todo francês, me transportando em dois tempos para alguma cena de filme dos anos 50.
Você que me cumprimenta com uma timidez tão acentuada que não combina com alguém que já rodou o mundo. Você que deve receber pelo menos umas dez ligações por dia, vários convites para jantar... Que não deve passar mais de 5 minutos se arrumando, porque qualquer roupa em você parecer sempre cair bem. Porque qualquer coisa em você nunca será qualquer coisa. E eu que ainda não consigo andar sem tropeçar em meus próprios passos, que nunca sei onde colocar as mãos enquanto falo, que não sei fazer bom uso do meu papo de garoto pernambucano.
Você que tem olhos verde-esperança... E eu que fico babando quando te vejo pisar em solo fértil, no mesmo solo em que eu também estou a pisar. Eu que fico só imaginando o que tem por dentro daquela camisa azul marinho, que fico sorrindo sozinho enquanto penso qual será o grau de maciez da tua pele tímida.
Você que nem sabe que meu ‘boa noite’ esconde tanta admiração e terceiras intenções. Que nem ao menos sonha que esse meu sorriso de canto de boca, de bom moço, quer na verdade te roubar pra mim, te chamar pra passear, te convidar pra filosofar lá em casa. Eu que tenho prova segunda e nem devia estar gastando meu tempo pensando nessas coisas.
Eu que nem ao menos sei teu nome completo ou o endereço da tua residência. Você que não sabe do meu apreço e nunca vai saber.