24 dezembro 2011

E ninguém vê o menino...

       Sinceramente, não gosto do espírito do Natal e quem me conhece já sabe disso. Apesar de quase sempre acabar embarcando nele assim como todos fazem. Mesmo assim, acho que o exagero só tem graça e é bem vindo quando é pelo viés do amor. Mas isso de mandar mensagens compartilhadas pra vinte pessoas da sua lista de contatos no celular, orkut ou e-mail, não é excesso de amor. É falta de tempo, de interesse, particularidade e sobretudo é praticidade. 
        Também não acho que o nascimento de Jesus mereça tantas árvores enfeitadas, sinos, comidas, presentes e etc. Logo ele que a história mostra que era um homem tão simples. Todos os dias nascem crianças especiais no mundo inteiro. Crianças que com seu caráter, sua humildade, sua luta, podem dar em algum momento de suas vidas contribuições importantes ao mundo. 
      Acredito de verdade que Jesus foi um grande exemplo de homem na terra. E mesmo que ele não tenha sido o filho de Deus, mesmo que Deus não exista, como eu acredito que não existe (não da forma com a maioria), mesmo assim Jesus não deixa de representar para a humanidade um exemplo de semeador do amor, da humildade, da justiça... Assim como tantos outros, filhos de homens comuns, humanos: Gandhi, John Lennon, Martin Luter King, Chico Mendes e tantos outros... 
       A gente sabe que ninguém vai surgir a noite e nos dar aquilo que a gente tanto precisa e/ou quer. A imagem do Papai Noel no natal é o retrato fiel de nossa tendência a querer conquistar as coisas sem esforço. É a metáfora do consumo imediato. Mas a gente se engana achando que não é assim. Já está enraizado no inconsciente coletivo da humanidade que o natal é tempo de consumo desenfreado e disso quase ninguém consegue fugir.
       Meu filho provavelmente vai fantasiar sobre a existência do papel noel quando criança, mas desde muito cedo ele vai saber que o tal velhinho não faz parte da cultura do meu país. 
      Não só por suas vestes, que no calor do Brasil deixa qualquer velho estressado e sem saco, mas porque a maioria do povo do meu país rala o ano inteiro pra chegar no final do ano e poder comprar pelo menos uns três presentes para suas crianças, porque uma tal indústria do comércio decidiu que natal é tempo de presentear alguém, alguénS. Eu não vou desmerecer o trabalho que tenho para prover meu dinheiro dando créditos há um personagem fictício que traz presentes para as crianças no natal.
       No meu país, a maioria das pessoas rala o ano inteiro pra ter uma ceia decente de Natal e isso eu realmente valorizo. E ainda, no meu país, apesar de toda a riqueza que possuímos e de todo dinheiro que existe no mundo ser suficiente para matar a fome de todos, ainda terá famílias que mal terão o que comer nesse natal, quem dera um presente. 
    É maldade criar uma criança mostrando as várias pontas das coisas do mundo? É maldade não criar um filho na fantasia? O meu filho, pretendo, irá viver na poesia das coisas reais e imaginárias. Na poesia do real que pode ser transformado na fantasiar e vice e versa, mas ele não irá viver na alienação de que o natal é igual pra todo mundo. 'Não, o natal não é igual pra todo mundo, meu filho.'
       Maldade é ver uma criança chorando porque sua mãe não pode lhe dar o presente que a mesma tanto quer. O presente que diariamente a televisão diz que ela tem que possuir. E mais maldade ainda é saber que essa mesma criança vai esperar a noite que papai noel entre pelo telhado, já que no Brasil quase não tem casas com chaminé, e lhe traga o que ela tanto quer. Maldade é não ter como argumentar com essa criança, é não poder dizer a verdade: 'Meu filho, eu não tenho dinheiro.'
        Maldade é ver uma criança de rua cheirando cola no dia de natal em pleno comércio da cidade do interior, enquanto os passantes nas ruas correm apressados para poder comprar os presentes de última hora. E ninguém vê o menino. Eu vejo, mas não faço nada além de ver.
       O natal então devia ser tempo de voltar uma atenção mais cuidadosa para as crianças em geral e não só para aquela criança lá da bíblia. Devia ser um tempo de muito, muito trabalho e esforço. E não de festa. Trabalho e esforço para destruir os muros e barreiras do nosso peito e construir pontes de diálogo em nossas relações.
     Natal não devia ser um tempo de mensagens clichês, mas da ações clichês. Ou até mesmo aquelas ações que estão fora de moda, como a de parar para refletir. Quer algo mais sem graça em nosso tempo do que parar para refletir? Dizem um grande número de pessoas. Quer ainda algo mais sem sentido do que amar quem eu não conheço? Parece que a maioria de nós entendeu errado quando Jesus pregava o amor ao próximo. Amor ao próximo é amor ao outro, próximo ou distante. É amor ao mundo. 
       Mas hoje a noite a maioria de nós irá para suas casas, com suas famílias, suas árvores e suas comidas e as crianças das ruas, continuaram nas estradas desenhando mensagens com lápis de luz. Sem um abraço sincero, sem ceia de natal, sem presente, com uma roupa simples, esperando que papai noel apareça e mude seu destino. 

          Desculpem!

Mazes

2 comentários:

Sumaya Bittencourt disse...

Que pena que fiquei apenas cheia de comoção e extremamente mobilizada por sentimentos e dores que não deviam ser tão alheios. Que pena não sofrer e amar a ponto de fazer algo realmente diferente dos passantes.

Marcelo disse...

Que pena que tanta gente reproduza tão prontamente tudo que uma mídia diz que é pra ser... e parece que passamos a esperar o papai noel que virá numa noite de neve entrar pelas nossas chaminés, nosso cotidiano mais próximo, nossa cultura mais singela, nossa capacidade de pensar um pouco antes de engolir e reproduzir tudo que nos dizem pra fazer vai ficando mais distante.
Mas fico feliz que teu filho vai ter outras opções além do que a tv e a internet dizem que é... espero também fazer isso um dia ^^
abraço