25 abril 2010

Se eu soubesse tocar gaita...


E por falar em música, se eu soubesse tocar gaita eu tava feito na vida, porque eu não precisaria mais passar dias decorando poemas do Mario Quintana pra impressionar alguém e largaria hoje mesmo a faculdade, pois teria um motivo concreto pra sair de casa e ir morar na praia. E conseguiria finalmente um lugar de destaque na minha família, pois eu seria o cara da família Oliveira Ferreira que toca Gaita e que largou a faculdade de psicologia para virar um sem teto.
 Então tá feito, quando aprender a tocar gaita eu te encontro, ok?  Mas enquanto tu não me procurar e eu não te encontrar vou levando a vida assim, tropeçando nos meus próprios pés tentando alcançar a luz. Andando sozinho na corda bamba rumo ao que acredito. E sei que o céu de Ícaro tem mais poesia que o de Galileu, assim com eu sei que seria tão bela a vida dos homens quando finalmente essa luz alguém conseguisse trazer aqui pra o nosso país.
 Repito pra mim lá pelas tantas da madrugada que eu não tenho medo das palavras, assim como eu não tenho medo de ter esperança. Preciso poder estar de pé mesmo no balanço dessa maré que hoje me parece tão agitada.  Preciso poder não enlouquecer apesar de todo desamor e de todas as notícias ruins que meus ouvidos ainda insistem em colecionar. Preciso poder também ser mais complacentes com meus amigos e comigo mesmo, afinal de contas a vida não é uma equação matemática. Graças aos céus a vida não é tudo ou nada.
Penso ficar bicho acuado no meu cantinho, penso também em soltar pipa, penso também fazer escândalos às 6 da tarde. Penso também que é preciso recomeçar e depois voltar ao início outra vez. Penso em não fechar de todo as portas, penso na necessidade de descuidadamente deixar um fresta pra que num dia qualquer alguém chegue e consiga tocar naquilo que nem eu mesmo consigo sentir.
 Em breve sei que minha anestesia perderá sua eficiência e eu darei pulos de alegria quando finalmente meu coração se deixar ser amado. Meu sorriso bonito vai virar moda em toda região e até mesmo quem repousar lá embaixo dos galhos do pé de laranjeiras, ouvirá meu canto feliz ‘E pelo visto, vou te inserir na minha paisagem e você vai me ensinar suas verdades’ Mas claro, tudo isso só quando eu souber de fato tocar gaita. Eu quando eu tiver na minha fase folk eu farei uma calça com a rede que mainha tem guarda lá no armário de roupas e deixarei definidos meus cachos desregulares. Faço questão também de não me sentir disposto a andar sem estar acompanhado de qualquer música do Bob Dylan.
Além de enfeitar o mundo todo com rodas gigantes, não sossegarei enquanto não proclamar o dia internacional da ciranda, que será dançada durante todo o dia enlaçando os laços invisíveis de nossa humanidade decadente. E dariam as mãos os que se ama e os que se odeiam num gesto simbólico que faria John Lennon voltar a terra só pra ele saber que não foi tão em vão escrever a música Imagine. E todo lixo estaria organizadamente na lixeira e todas as crianças brincando de laia num gramado qualquer. E os que já passaram dos 80 seriam os organizadores dos festivais de musicas, enquanto a juventude em massa sairia a palestrar sobre paz, amor e respeito.
 Os meninos andariam de mãos dadas enquanto as meninas se beijariam em praça pública.  Os maridos levariam flores diariamente para suas esposas e as mesma deixaram a casa impecavelmente arrumada e após um dia inteiro de trabalho comercial, estariam sorridentes e sensuais para uma noite de samba na casa de show mais badalada da cidade. Os telejornais só dariam notícias boas e a crise mundial teria fim. Seria então que se falar em sustentabilidade seria um assunto desnecessário, já que a humanidade teria aprendido a respeitar a natureza e o próximo. E somado ao lápis e borracha, as crianças teriam também a gaita como material escolar, isso tudo se eu soubesse tocar gaita...

 Mazes

Um comentário:

E Agora Gregório? disse...

É tão bom conhecer alguém que sabe costurar tão bem as palavras. Ficou muito bom!