12 abril 2010

E eu que nunca aprendi a soltar pipa


E eu que nunca aprendi a soltar pipa, que pretendia casar com o amor da minha vida numa tarde ensolarada a beira mar. Eu que desenhava na calçada com giz branco roubado do quadro da escola, que desejava adotar uma criança, fazer sexo apenas com 20 anos, passar uns anos em Portugal e estudar em Coimbra. Eu que imaginava acordado como seria ter uma biblioteca na minha sala de estar, economizar energia, virar vegetariano, comer mais frutas no café da manhã, preservar o verde, ler mais livros de filosofia... Eu que cresci dentro do teatro e sonhava montar minha própria trupe e sair viajando o Brasil a fora. Eu que fiz o meu primeiro vestibular pra jornalismo, eu que escrevia poesia... Eu que sonhava morar de vez no campo, tirar frutas do pé... Eu que queria sempre dizer o penso, que lutei pra encontrar uma forma de não mais magoar as pessoas a quem amo, não mais ser tímido, não mais andar de braços cruzado, não mais ser tão sensível, não mais ser o bobo da turma. Eu que me esforcei pra perder o medo de dizer bobagens em públicos ou contar piadas que não tenham a menor graça. Eu que usava boina preta, sandália hippie, que era presidente de um jornal na escola, que organizava um sarau poético e que pensei um dia ser um engenheiro agrônomo. Eu que queria ser menos sentimental, que seria ser mais profissional, que ia aprender a fazer minha própria moda. Eu que sempre quis aprender Libras e um dia quem sabe Braille. Eu que ia me dedicar aos estudos, eu que ia parar de escrever todas essas coisas bregas, cafonas e clichês que tenho escrito nos últimos anos. Eu que participaria de protestos estudantis, eu que criaria uma ONG pra trabalhar com reciclagem, eu que conversava com mendigos, eu que achava que existia a luz no fim do túnel, eu que acreditava em alma gêmea, eu que achava que o que temos por dentro era mais importante do que toda essa carcaça imperfeita. Eu que era o patinho feio... Eu que sempre sentei nas últimas bancas da sala... Eu que ficava perdido na hora do recreio. Eu que decidi que ia parar de sofrer e dar importância a quem sempre me tratou com desdém. Eu que brincava de balanço, que desaprendi a desenhar, que nunca aprenderei a cantar... Eu, justamente eu que me apaixonava como quem troca de roupa... Eu que deveria ser menos egoísta... Eu que achava que podia ser tudo, só queria ser outra pessoa.

Mazes

3 comentários:

Ed... disse...

Belo escrito Menino... você tá ficando cada vez melhor!!! =)

Rosinha Souza disse...

(Tudo é aula, sempre aprendemos algo!)

Poema em linha reta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

[538]

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

E Agora Gregório? disse...

Não pense em mudar essa alma de menino voador, jamais. Adorei mesmo as palavras!